15 Julho 2009

A FLORESTA


® Roberto Shinyashiki

Um lenhador percorre há anos a mesma floresta. Diariamente, ele observa com cuidado as árvores e cada detalhe da mata que fazem com que seu trabalho seja o mais produtivo possível. E, assim, ele vai ganhando seu sustento com determinação e paciência.
Certo dia, o lenhador encontra um sábio meditando na floresta, e os dois começam a conversar. O lenhador resolve contar o quão difícil é seu trabalho diário, sua cansativa rotina de cortar a lenha, carregá-la até a cidade e encontrar um comprador para conseguir algum dinheiro.
Durante a conversa, o sábio pergunta se ele conhece toda a floresta.
O rapaz lhe responde:
- Mais ou menos...
O sábio, então, lhe diz:
- Avance, meu filho, existem muitos tesouros esperando por você!
Durante anos, quando os dois se encontram, a saudação do mestre é sempre a mesma:
- Avance, ainda existem muitos tesouros esperando por você!
Certa vez, o lenhador, diferentemente dos dias anteriores, decide
Seguir os conselhos do sábio e entra na floresta, numa área ainda não explorada.
Ele olha ao redor e fica maravilhado. Tudo o que vê é diferente, os animais, as árvores e as flores. Para sua surpresa, ele encontra uma mina de prata. Apanha um pouco do metal e, com a venda, consegue dinheiro suficiente para sobreviver uma semana.
Todas as semanas ele vai até a floresta, feliz com a mina de prata.
Agora tudo de que precisava era trabalhar uma vez por semana. Porém, sempre que encontrava o sábio, ele sorria e dizia:
- Avance, ainda existem muitos tesouros esperando por você!
Até que um dia resolveu aceitar a provocação do mestre e foi além da mina de prata, passando por outras vegetações e, de repente, se deparou com uma mina de ouro.

Extraiu o quanto pôde do valoroso minério e depois vendeu no mercado da cidade. Era a maravilha das maravilhas, pois tinha dinheiro para um ano de vida.
Todos os anos, o ex-lenhador ia até a floresta, feliz com a mina de ouro. Agora só precisava trabalhar uma vez por ano. Porém, sempre que encontrava o sábio, este sorria e dizia:
- Avance, ainda existem muitos tesouros esperando por você!
O ex-lenhador mostrava-se muito tranqüilo, pensando que já tinha conseguido tudo o que poderia imaginar. Até que novamente resolveu aceitar a provocação do mestre e foi além da mina de ouro, chegando até um local de beleza surpreendente, onde encontrou uma mina de diamantes. Pegou a pedra mais linda que encontrou, levou-a até a cidade e conseguiu dinheiro para nunca mais ter de trabalhar.
Muitos anos mais tarde, contando para seu filho a história da sua riqueza, ouviu a seguinte pergunta:
- Pai, por que você continua indo à floresta todos os dias, mesmo sem precisar mais de dinheiro?
O velho olhou-o com ternura e, sorrindo, disse:
- Eu gosto de pensar que sempre existe um novo tesouro para encontrar!

O empreendedor sempre tem o senso de procurar um tesouro no próximo movimento. Isso alimenta seu espírito e aquece seu coração.
Sucesso é conhecimento colocado em ação.
Lembre-se do que disse o mestre:
- Avance, ainda existem muitos tesouros esperando por você!

12 Julho 2009

PRECE DO GAÚCHO


De Dom Luis Felipe de Nadal, Bispo de Uruguaiana, faleceu em Passo Fundo num trágico acidente aviatório em 1962.

Traduzida em versos por: Nelson Antunes Osório

Em nome do Pai do Filho
E do Espírito Santo
Com Deus me deito, e me levanto
Com licença Patrão Celestial
Sevo o amargo de minhas confidências
Ao romper da madrugada
Fazia grande campereada
Dom Luiz Felipe de Nadal

Campereia em pagos estranhos
Em uma outra invernada
Tinha sua triste cina traçada
Deus lhe chamou lá do céu
Repontas a força e a coragem
Para o entrevero do dia que passa
Nós livre de uma disgraça
Tua prece é um troféu

Bem sabemos que todo o guasca
De bombacha, bota e espora
Te faz uma prece em cada hora
Ajoelhado sem chapéu
Ouve Patrão Celestial
O pedido que eu te faço
Nos guie lá do espaço
Mande a proteção do Céu

Ao romper da madrugada
Bem antes de sair do sol
Ao gorjear meu rouxinol
Eu te faço esta oração
Perdoa as fraquezas humanas
E também todas as afrontas
Pois, afinal de contas
Aqui somos todos irmãos

Sabemos que nem o melhor ginete
Não se afirma nos arreios da vida
Sem preparar sua partida
Não podemos ficar ao léu
Nos ajude Patrão Celestial
Antes de chegarmos ao fim
Porque a vida não é assim
Para entrarmos lá no Céu

Nos defenda do mau caminho
Como nós dominamos os potros
Não deixe nos fazer aos outros
O que não queremos “prá” nós
E nos perdoa meu Senhor
Eu te pesso de coração
Vamos cumprindo nossa missão
Respeitamos tua serena voz.

E pra fim de conversa
Ajuda-me Virgem Maria
Eu disse o que não queria
Mas meu coração se expande
Nos ajuda meu São Pedro
Capataz da estância Gaúcha
Eu sinto em mim ala puxa
O padroeiro do meu Rio Grande

(Presente de Cristina Brum-RS)

08 Julho 2009

DEIXE-ME GOSTAR DE VOCÊ!


- Fátima Irene Pinto -

Deixe-me gostar de você feito criança porque descobri que é o único jeito que consigo gostar de verdade, sem confusão, sem hipocrisia.

Deixe-me gostar de você da forma mais simples, sem porquês, sem perguntas, sem articulações.

Se eu ou você pensarmos muito e nos colocarmos sob o crivo da razão, teremos que ver entre as nossas qualidades também os nossos defeitos. Teremos que ver a treva que coabita com a nossa luz. Então deixe-me gostar de você como criança. Criança gosta sem pensar.

Deixe-me gostar de você sem cobranças, sem compromissos que não sejam aqueles que nós dois estabelecemos para nós mesmos e não aqueles que os homens inventam que devemos seguir à risca toda vez que resolvemos gostar.

Deixe-me gostar de você da forma mais inocente que eu puder.
Neste gostar permita-me descartar toda a cultura, filosofia, modismos, conceitos ou preconceitos, dogmas, todo e qualquer mandamento ou imposição que venham de fora. Quero apenas ouvir meu coração, assim como quero que você ouça o seu.

Se eu ficar com você um minuto, uma semana, um mês ou um ano, que seja pelo real prazer de ficar, pois aprendi que não é a duração, mas a qualidade que transforma um único minuto numa experiência com gosto de eternidade.

Deixe-me gostar de você sem expectativa, sem planos para o futuro, sem gaiolas que limitem o meu querer porque o futuro é tão incerto e nunca é do jeito que pensamos.
Se nos gostarmos de verdade, é possível que haja muitas ações no presente e é só isto o que verdadeiramente importa.

Acima de tudo, deixe-me gostar de você deixando-o completamente livre para ficar ou para partir. Deixe-me gostar de você sem máscaras e sem verniz.
E se um dia eu disser adeus e partir, creia, será no exato momento em que eu descobrir que já não sou capaz de me fazer ou de o fazer feliz.

www.fatimairene.prosaeverso.net

04 Julho 2009

Ao pé do Farol


Li, certa vez que, ao pé do Farol, não há luz. Mas, e o que dizer, quando falamos não de uma proximidade geográfica, mas emocional, como na relação entre pai e filho, por exemplo?

Somente hoje, distante de meu pai, vejo o suficiente para enxergar, com relativa nitidez, a luz de seu Farol e para compreender a liberdade acolhedora de seu amor que, à época, eu percebia como sufocante e limitador.

Foi preciso jogar-me ao mar, navegar nas ondas e intempéries daquilo a que chamamos vida, para vislumbrar não somente em que me tornei, mas também para reconhecer a segurança do porto de onde parti.

Só assim pude entender não apenas o que hoje sou, mas de que raízes brotei… Lembro-me de, quando jovem, ter dado a meu pai um livro do genial poeta Kahlil Gibran. No capítulo “Dos Filhos”, Gibran escreve: “Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.” Eu, como todo jovem, clamava por liberdade.

E,como jovem, ignorante e esquecido dos perigos do desconhecido, enxergava apenas o mar que à minha frente se expandia.

Dar o livro a meu pai era como dizer a ele: “me deixa viver, me conceda a liberdade plena da experiência.”
Lembro que toda vez que discutíamos sobre liberdade ele me falava dos perigos que a vida nos reserva.

Mas eu, que estava ao pé do Farol, enxergava apenas a beleza do horizonte e meus olhos não percebiam a dureza do percurso…

Hoje sou pai.

Os filhos crescem, amadurecem, e percebo que, como muitos pais, continuo a tratá-los como se tivessem sempre a mesma idade, a mesma mentalidade, as mesmas fraquezas…

Como hoje eu entendo que, para aprender a navegar, precisamos desafiar os tormentos e as borrascas do mar, é chegada a hora de aceitar um dos inevitáveis desígnios da vida: se nossos filhos estão ao pé do Farol, eles só poderão ver a luz se entrarem mar adentro…

E o melhor que podemos fazer, é desejar-lhes boa viagem. E torcer para que carreguem consigo um pouco de suas raízes.

"Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles, a isso denominam “educação”, nenhuma mãe duvida, no fundo do coração, que ao ter seu filho pariu uma propriedade; nenhum pai discute o direito de submeter o filho aos seus conceitos e valorações." (Friedrich Nietzsche)"

(Presente da Marciley - Marília - SP -
http://marciley.zip.net)

01 Julho 2009

VERSOS DE AMOR




Versos de Amor



Esqueça os barcos no cais
e escreva-me versos de amor
repletos de ternura
que alucinem a minha alma.

Presenteie-me com rosas
e preencha meus vasos
de vermelho escarlate.

Esconda a nostalgia em brumas,
ignore as horas de solidão
e traga-me tua eternidade presente
e não me permitas saber
em que momento começa o futuro

Quando anoitecer
adoce minha boca com teus beijos,
contorne as minhas fronteiras
e traga de volta as delícias
do verão passado.

Iluda-me com tuas fantasias
e faze-me suspirar,
depois embale meus sonhos
de menina e cuide de mim
pois até meu sexto sentido
não faz sentido quando
não estás aqui.

© rosemari hauenstein ruch

http://poemaseamores.blogspot.com/

27 Junho 2009

POEMA DE AMOR





POEMA DE AMOR



**Bruno Kampel**

Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.

Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida
e não a hora das reminiscências.

Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.

Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como água
sem barco, como margens sem rio
como um dia sem horas.

Difícil começar a dizer
da saudade que sofro,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.

E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.

Sim, não nego:
quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança,
um pedido de clemência.

Nem mais, nem menos,
nem muito ou pouco,
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.

Sim,
um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.

E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.

E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia:
vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura e não de angústia
gritando de esperança e não de raiva,
é como digo que te amo,
meu Brasil nunca esquecido.

©Bruno Kampel, Suécia

http://kampel.com/poetika/poemamor.htm

24 Junho 2009

PÁGINA VIRADA


**Eliana Duarte

Hoje resolvi virar a página da minha vida,
vou deixar para trás tudo que me fez mal.
Minhas tristezas, decepções,
amores incompreendidos, mal vividos.
Momentos que de alguma forma me
fizeram sofrer,
vou apagá-los simplesmente.
Começar uma nova vida,
conquistar um novo amor,
coração cheio de esperanças de dias
melhores e mais felizes.
Irei encontrar alguém que realmente me ame
e valorize-me como mereço!
Vou escrever nas linhas em branco da minha
vida uma nova história, recomeçar e
reconstruir novos sonhos, anseios e acreditar
que tudo passa e amanhã será um novo dia.
Vou usar uma caneta especial para refazer
meus dias, uma tinta que não se apague na primeira crise,
que o amor seja sólido e duradouro.
Um amor verdadeiro!
Então, hoje ressurge das cinzas uma nova mulher.
Livre, coração sossegado e pronta para
reconstruir uma nova vida.
Feliz e em paz consigo mesma.

(Presente da Áurea Manchini)

22 Junho 2009

S... DE SAUDADE


" QUANDO CHEGAR A MINHA HORA E EU PASSAR PARA O LADO DE LÁ, NÃO CHORE POR MIM, TEREI IDO FELIZ."

Nos últimos anos da sua vida Ela sempre dizia isso à sua amiga. Era como se não restasse mais nenhum caminho a percorrer, era como se fosse uma estrada que realmente chegava ao fim.

Se conheceram quatro décadas antes de tudo isso, ela então com cinqüenta e dois anos e sua doce amiga, apenas uma menina, com doze primaveras que desabrochavam como rosas coloridas.

Eram vizinhas, Ela uma mulher exuberante, pintora, independente, sempre com muitos compromissos sociais, sempre viajando mundo a fora. Havia algo porém, que nunca pôde ser explicado. Apesar de ser uma mulher um tanto seca e muito reservada , quando se deparava com aquela menina, se desmanchava, parecia que a vida para Ela parava ali por alguns instantes.

E o tempo foi passando e aquela menina se tornou uma mulher e Aquela mulher uma velhinha, sozinha, envolta completamente na solidão. Não tinha parentes, nunca se casou, não teve filhos, mas viveu uma vida de glória, cercada de gente, aquele tipo de gente que assim como entra em nossas vidas, também sai, rapidamente. Gente que só convive bem com o glamour.

Os anos foram passando, a amizade, os encontros, as conversas agradáveis nunca cessaram entre Ela e sua amiga menina. O mesmo encanto que Ela teve pela garotinha de doze anos no primeiro dia em que a viu, ela ainda tinha pela mulher madura, que no decorrer da vida veio a se tornar sua única e grande amiga.

Nos seus últimos anos de vida, afastada de tudo e de todos, com poucos recursos para sobreviver, as coisas se tornaram muito difíceis para Ela, no entanto a sua grande companheira não a abandonou e tentou ajudá-la em tudo que esteve ao seu alcance, desde a companhia, ao prato de comida.

Um dia, já perto de morrer, ela realizou um pequeno sonho, foi rever uma exposição de Monet que acontecia na cidade em que vivia, Rio de Janeiro. Este foi um momento mágico para a menina/mulher, vê-la finalmente em seu habitat natural, junto da arte que tanto lhe encantou por toda a vida.

Mas a fraqueza daquele coração artista era cada vez maior e a idade também. Aquele compasso que durante tantos anos guiou suas mãos para pintar quadros maravilhosos estava perdendo seu rítmo.

Da janela de sua casa, podia observar a casa da sua amiga menina/mulher, mas especificamente o quarto dela, que tinha uma luz amarelada e indireta. Dizia sempre a ela: Adoro ficar da minha janela observando a luz difusa do seu quarto.

E chegou o dia da sua partida... foi sem se despedir... sem medo... sem desespero... sem arrependimentos...no silêncio de uma tarde, na solidão de sua casa.

Nesse dia sua amiga menina/mulher não viu a luz de sua casa se acender às seis da tarde como de costume, não viu nenhum tipo de movimentação e foi até lá... e suas batidas na porta foram em vão.

Ela entendeu o que estava acontecendo, mas se recusou a acreditar. Amigos a ajudaram a enfrentar aquele momento que já era esperado, mas que doeu tanto, que amargou uma enorme solidão na alma, que explodiu num grito e ecoou através de um rio de lágrimas.

Nunca saberemos a falta que alguém vai fazer em nossas vidas, até que ela nos deixe orfãs de sua presença. Essa foi uma certeza que a menina/mulher teve nesse dia.

Voltando pra casa depois daquela noite terrível a menina/mulher teve uma surpresa... da janela de seu quarto viu aquela mesma luz difusa amarelada que havia em seu quarto, na casa de sua amiga que havia partido. No dia seguinte foi até lá para apagar a tal luz.... reflexo aquele que nunca havia visto por lá antes... não havia nenhuma luz que tivesse sido esquecida acesa... e ela já sabia disso... ela entendeu no exato momento que viu aquela luz, que aquilo era apenas um adeus e um recado...: ESTOU BEM, PARTI ILUMINADA.

Depois de ter dito em vida, inúmeras vezes à sua doce amiga - "Você é a filha que eu nunca tive" - ela provou em morte que isso era verdade com um testamento:

"Tudo que eu tenho, deixo pra ela após minha morte... porque foi ela... tudo que eu tive em vida"

Ela se chamava -------- Suzanne Betous

A menina mulher ------- Silvana Duboc

Ambas com suas origens na França

Ambas artistas dentro do coração

Ambas com a mesma inicial em seus nomes

S...de Saudade!

In Memorian
Suzanne Therese Betous
- 04/09/1914 - 23/02/1999

**Silvana Duboc**

17 Junho 2009

VENHA LOGO




VENHA LOGO



Eu tenho procurado por você faz tanto tempo... acho que tenho procurado por você por toda a minha vida.

Não sei que fim levou você, ou em que planeta se escondeu, porque eu sei que você existe e que está do mesmo jeito que eu, buscando por mim sem saber direito que existo e que estou aqui, esperando por você.

Só que de repente fiquei cansada e desisti de aceitar da vida o que ela tinha pra me oferecer, e por causa disso os últimos anos foram muito difíceis, e agora parece que acordei de repente e quando olhei em volta percebi que o mundo havia se desabitado de verdade, e as pessoas estavam cada vez com mais e mais pressa de passar e não deixar marcas e não consegui mais contato com ninguém que se aventurasse a ir além de arranhar a superfície pra procurar através daquilo que parece e não é.

Já tenho sessenta anos agora e ainda estou à sua procura, e se passar mais outro tanto sem você chegar juro que vou enlouquecer, e é por isso preciso que você venha logo, entende, pra gente tentar ser feliz enquanto é possível respirar, pra que a gente possa caminhar por aí dividindo alguns sonhos, e ainda que não tenha muitos eu prometo que ajudo a sonhar os seus porque nesse tempo de esperar por você nem tenho mais dado conta de ter meus próprios sonhos.

Eu sei como você é e que gosta de madrugada e de dia de sol, e também que não vai se importar se vez por outra eu falar baixinho pedindo que me dê a mão para eu poder dormir porque preciso me sentir amparada no meu sono, e que nem vai se incomodar de ser muito amado, nem se sentir desconfortável quando eu disser "eu te amo" mais do que é permitido no manual da boa moça, porque afinal não sou nem boa nem moça... sou uma mulher querendo muito dizer eu te amo pra você.

Quero mesmo é respirar e sentir o seu hálito quente em meu rosto, e seus dedos alisando de mansinho as rugas que se formarem em volta dos meus olhos quando eu sorrir dizendo bom dia porque sei que o dia que começar com sua cabeça no travesseiro ao lado com certeza só poderá ser bom, infinitamente melhor que os dias em que acordo e amontôo os travesseiros para que a cama não pareça assustadoramente vazia como tem parecido nestes últimos anos.

Ah, e quero rir... e rir de qualquer bobagem que seja, porque houve um tempo em que meu riso tinha um valor imensurável e fazia parte do meu charme, e eu sei que em algum lugar de mim ele ainda existe, à espera de espaço para fluir e se fazer presente... quero sair de dentro de mim sem medo de não ser aceita, nem compreendida, porque quando você conhecer a mim vai me amar do mesmo jeito que eu vou amar você. E então meu riso vai brotar de dentro de mim pra você.

Eu fico aqui pensando que você deve ter se cansado de me procurar e ficou assim que nem eu, perdido nesse marasmo, mas ainda tem jeito de você chegar porque afinal, ambos estão tanto tempo à procura um do outro mesmo, que nada melhor que nos encontremos de uma vez. Então desce desse planeta quase extinto e vê se chega pro café da tarde, mas não espere que tenha bolo de fubá na mesa porque preciso confessar a você que não sei cozinhar, nem fiar, nem bordar, nem fazer essas coisas todas que ensinaram a você que as moças prendadas faziam.

Por outro lado, tenho cá meus encantos, faço um silêncio pra lá de especial, sei caminhar macio e parecer invisível quando necessário e também adoro jornal espalhado pela casa, ainda que dividido em seções possa parecer mais civilizado. E farelos: sou doida por farelos por todos os lados e não dou a mínima se tiver roupa atirada por aí, conquanto você aqueça meus pés nas noites frias de inverno.

Pensando bem, preciso também dizer a você que nestes anos em que está demorando pra chegar adquiri alguns hábitos não muito saudáveis, como por exemplo comer fora de hora e nunca à mesa, e de dormir tarde e acordar mais tarde ainda... mas tenho certeza que podemos ajustar nossos relógios e encostar nosso tempo de ser feliz e eu até prometo abrir mão dos farelos se você precisar dormir num lençol impecavelmente esticado; e embora odeie futebol prometo nunca perguntar que graça tem vinte e dois bonequinhos correndo atrás de uma bola porque nessa hora vou estar na cozinha vigiando o microondas estourar pipocas pra você.

Não sei porque você ainda não despencou dessa árvore onde pendurou sua desesperança, mas eu torço que você esteja escorregando dela e que caia direto nos meus braços abertos à sua espera porque aí nós vamos poder dançar descalços pela vida por um bom tempo ainda, pois o amor rejuvenesce e revigora a gente; e afinal, que importa se nossas idades somadas perfazem mais de um século se há toda uma eternidade à nossa espera?

Eu sei que você existe e que está apenas esperando que eu lance à sua praia a garrafa com o fatídico bilhete amarelado pelo tempo dizendo venha me buscar! mas acho que você também perdeu a esperança porque tenho mandado meu navio atracar seu porto todos os dias e você nunca está na beira da praia...

Tem outra coisa que preciso lhe contar: é que meus cabelos agora estão brancos, e eu os pinto pra disfarçar, mas daí fico pensando que não deve ter lá tanta importância porque com certeza se você tiver os seus ainda serão brancos também; e isto me faz lembrar que se por acaso você tomou cerveja demais ao longo da vida eu não vou me incomodar que isto tenha lhe dado barriga desde que você não se importe que eu não possa mais andar de mini-saia.

Ah, tem coisa à beça que quero lhe contar desse tempo de esperar por você, mas prefiro que seja baixinho no seu ouvido, porque alguns pecadinhos ditos em voz alta podem parecer maiores; por outro lado a gente pode fazer um pacto de silêncio e começar tudo outra vez, e criar um tempo novo onde sejamos apenas eu e você e mais nada.

Agora, eu acho que fotografias de netos vão acabar aparecendo de um jeito ou de outro, e nesse caso é bom que você saiba que embora avó, tenho muito da menina que você tem procurado pela vida afora. Ainda tem luzes nos meus olhos, minha boca continua macia, e eu sinto que quando você me tocar as sensações da adolescência e da primeira vez vão estar todas ali do jeito que você espera.

Olha eu aqui. Mesmo que eu não seja exatamente como você me criou em sua imaginação, quero que compreenda que passaram anos desde que você começou a me procurar. Por isso, procure enxergar além de mim mesma, através da roupa que me veste, do corpo que me cobre a alma, e descubra a mim, aquela que sou na minha essência e que tem estado todo esse tempo à sua espera.

Ah, esqueci de lhe dizer uma última coisa: pode chegar a qualquer hora, viu, porque qualquer hora é hora de chegar e você vai ser muito bem-vindo quando finalmente abrir a porta e habitar meu mundo e nossas solidões puderem se alisar até se diluírem no calor do nosso abraço e depois disto nunca mais seremos sós. E ficaremos finalmente em paz.

**Maria Tereza Albani**

14 Junho 2009

A CASA 171




A CASA 171

Era uma rua comprida, cheia de casas tipo colonial, cada uma das casinhas com flores na janela e tinha de toda cor. Na janela lá de casa, que era bem no final da rua, minha mãe adorava colocar umas margaridas, mas eu nunca gostei muito de margaridas, achava uma florzinha sem graça, me dava a sensação que elas eram uma multidão, quando olhava pra elas me sentia como se estivesse no meio do trânsito engarrafado e depois todas eram idênticas, parecia que não tinham personalidade.

Eu gostava mesmo era de passar em frente a casa da Dona Lúcia, lá no início da rua, cada dia ela colocava uma flor diferente, aí pela manhã quando eu saia para ir ao colégio eu ia caminhando pela rua e pensando que flor haveria de estar na janela dela naquela manhã e quando chegava em frente a casa dela, era sempre uma surpresa.

Eu tinha alguns amiguinhos lá na rua, umas garotas e uns molequinhos. As garotas só sabiam brigar, implicar uma com a outra, e os moleques de lá eram muito chatos, aí tinha dias que eu ficava cansada de todos eles e nem saia pra brincar e com isso fui ficando cada vez mais dentro de casa.

Um dia minha mãe chegou da rua e disse pra meu pai: Passei ali em frente à casa 171, aquela que está vazia e estão pintando, parece que vai mudar alguém pra lá.

Corri na janela, a 171 era do outro lado da rua, quase em frente a minha casa, realmente, estavam pintando, que boa notícia, algum estranho ia mudar pra lá e eu ficava pensando se seria alguém interessante, se eu ia gostar, se ele ia gostar de mim também. Desse dia em diante não tive mais sossego, toda vez que eu passava lá em frente ficava observando como estava o andamento da pintura. Certa manhã me enchi de coragem quando saí para ir ao colégio, parei na porta e perguntei para um dos pintores?

— Ô moço, o Sr. conhece quem vai mudar pra essa casa?

Ele olhou pra mim, sorriu e disse: — conheço sim, é um casal.

— E eles têm filhos?

— Tem, um menino.

Ah.... era tudo que eu queria, um menino, além de eu estar cansada daquela turminha da rua, o que eu gostava mesmo era de conversar com meninos, eles eram na maioria das vezes bobos, mas eu não sei porque, havia uma identificação melhor entre nós, não que eu fosse boba também , mas é que eu tinha a esperteza suficiente pra entender a bobeira deles. Minha mãe dizia que eu tinha alma de menino, que entendia eles, que as meninas eram muito fresquinhas pra meu gosto, e sabe que ela tava certa? Só anos depois é que eu fui entender bem isso.

Daquele dia em diante então eu passei a vigiar a tal casa constantemente pra ver quando a pintura acabava e finalmente duas semanas depois ela acabou, aí passei a vigiá-la pra ver quando a família chegava com sua mudança.

Numa manhã de sexta-feira eu estava de férias e ainda na cama quando ouvi meu pai chegando da padaria e dizendo pra minha mãe: — Querida, o pessoal da casa 171 tá chegando, já conversei até com eles, muito simpáticos.

Nossa, eu dei um pulo da cama, escovei os dentes, mudei a roupa e gritei: — Mãeeeeeee, vou lá fora brincar!

Ela não entendeu nada e saiu feito louca atrás de mim falando, falando... e eu não ouvia nada, me parece que ela dizia algo do tipo... tá maluca? vem tomar café primeiro!

E eu lá queria café, eu queria era conhecer o tal menino.

Cheguei lá fora meio sem graça, tinha uns coleguinhas meus na rua, me aproximei deles pra disfarçar. Estava um entra e sai na casa. Reparei um monte de livros dentro de uma caixa, tinha O Pequeno Príncipe, Os meninos da Rua Paulo, O Meu Pé de Laranja Lima e outros, todos eu já havia lido e achei interessante, o menino devia gostar também de ler, já tínhamos algo em comum então, que bom!

Estava perdida nesses pensamentos quando de repente o menino saiu de dentro da casa. A turminha foi até ele e eu fui junto, nos apresentamos: — Prazer... Soninha. E ele sorriu pra todos nós meio tímido.

Conversamos um pouco e fiquei sabendo que ele gostava de jogar bola, escrever, ler, gostava de música, de rock especialmente, gostava de flores, de sol, detestava cinema, gostava de desenhos animados e por isso se amarrava no Cartoon Network.

Em alguns momentos achei ele meio pedante, mas como eu tinha uma paciência de jó com meninos, dei um desconto, se fosse menina eu já tava longe.

No dia seguinte , como em todas as casas da rua, já haviam flores na janela da casa dele. Colocaram tulipas amarelas e eu achei engraçado alguém gostar de tulipas e ainda por cima amarelas.

Mas a vida na minha rua foi transcorrendo normalmente, eu e ele sempre nos encontrávamos e sempre conversávamos muito, foi virando mesmo um vício. Nunca pensei que conversar com alguém pudesse virar vício, Eu chegava da escola e ele já estava lá no portão me esperando. Eu não tinha tempo pra nada e gostava de não ter tempo pra nada e só ter tempo pra ele.

Quantas vezes entrei correndo em casa do colégio, minha mãe preparou meu prato ,fui para o portão e sentada na escada com ele no colo, almocei e conversei com ele. Era o melhor almoço do mundo. Ele me dizia pra ir comer lá dentro, que me esperaria, mas eu não podia perder tempo, cada minuto com ele era precioso.

Fomos ficando de um jeito, que já não conversávamos com mais ninguém, um terceiro na nossa conversa podia atrapalhar, e o nosso papo era bom demais pra ser dividido com alguém.

Todo dia pela manhã, quando eu acordava, eu abria a cortina do meu quarto pra ver se a dele já estava aberta e mesmo que naquele momento a gente não pudesse se falar, dávamos pelo menos um tchau.

Mas não foi tudo tão perfeito, algumas vezes nós brigamos... e brigamos feio, mas depois ficamos de bem porque não tinha briga que nos afastasse. Nós nunca conseguíamos ficar com raiva um do outro por mais de meia hora.

Me lembro de um passeio que fizemos. Num sábado de sol ele bateu na minha casa bem cedinho e me convidou pra ir passear numa praça que tinha lá perto da nossa casa.

Era um lugar bonito, gramado, cheio de gente passeando, uma música gostosa tocando vinda de um conjuntinho daqueles regionais. Foi muito legal o passeio, a gente se divertiu demais, rolamos na grama, rimos, dançamos, cantamos, eu até caí dentro de um buraco na distração, mas ele me ajudou a sair de lá.

Na volta pra casa voltamos por um caminho diferente, escondidos dos nossos pais é claro, era um caminho mais perigoso e eles tinham nos prevenido que não voltássemos por ali, mas teimosos que éramos resolvemos viver essa aventura.

Vimos um poço fundo, escuro, tenebroso e eu brincando disse a ele: — Vou pular!!!!

Ele sorriu pra mim e respondeu: — Se você pular, eu pulo.

Claro que eu não pulei, mas eu sabia, eu tinha a certeza, que se eu pulasse ele pularia também.

Mas aí passou muito tempo e uma certa noite, véspera do meu aniversário, choveu, relampejou e por isso eu nem consegui dormir direito e no dia seguinte claro que dormi até mais tarde e quando acordei, acordei assustada, um aperto no coração. Abri a cortina do meu quarto e espiei pra casa dele.

Não tinham mais flores na janela, a porta completamente escancarada, lá dentro eu não via mais nada.... dei um salto da cama, corri na chuva descalça entrei na casa... nenhum móvel, nada, ninguém....

Ele partiu sem me dar nenhuma explicação, sem se despedir de mim.

Nunca entendi aquilo, nunca aceitei o que ele fez comigo, e nunca consegui esquecer tudo de bom que a gente viveu.

Muitos anos se passaram, eu cresci, moro bem longe daquela rua hoje, mas muitas vezes quando me sinto só, pego meu carro e passo por lá, paro na frente da casa 171 e fico pensando como um dia eu fui feliz.

Hoje eu não sei mais quem vive naquela casa, mas vejo sempre umas flores murchas na janela, não devem regá-las.

Dona Lucia ainda mora lá na mesma casa no início da rua, tá velhinha coitada, mas a sua janela continua sempre com mil flores coloridas... lindas.... variadas... e ela continua a cuidar delas como ninguém.

Ah... Dona Lucia é que descobriu direitinho o segredo da vida.


**Silvana Duboc**