30 Outubro 2009

OS ESTRANHOS DO BEM


**Martha Medeiros


Estranho, pra mim, era um cara que usasse óculos escuros à noite, tivesse um bruta cicatriz ao lado da orelha e uma faca ensanguentada entre os dentes.

Pouco lembro do apartamento onde passei minha infância, mas não esqueci nada da rua onde morava, das casas vizinhas, do quarteirão inteiro onde eu brincava desde o início da tarde até o início da noite e, por vezes, inclusive à noite. Naquela época não havia medo de assaltos, de atropelamentos, de sequestros relâmpagos: a gente pegava a bicicleta e saía com a maior liberdade, sem pânico nem neuras, o oposto do que acontece hoje, quando as crianças só podem brincar dentro do prédio, em prisão domiciliar.

Porém, mesmo com liberdade, havia um perigo rondando. Você deve lembrar o que nossos pais buzinavam em nossos ouvidos a cada vez que abríamos a porta de casa para sair: Não dê conversa a estranhos. Mais uma vez, é o oposto do que acontece hoje. Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos.

Quando menina, eu me perguntava: o que será que eles (os adultos) querem dizer com "estranho"? Estranho, pra mim, era um cara que usasse óculos escuros à noite, tivesse um bruta cicatriz ao lado da orelha e uma faca ensanguentada entre os dentes. Mas estranho, pra eles, ia além: era qualquer um que a gente não conhecesse. Podia ser o pároco do bairro: um estranho. Corra!

Assim que tive idade para diferenciar conhecidos e estranhos, acolhi ambos. De um lado, me apegava às amigas do colégio, todas falando igual, vestindo igual, pensando
igual e usando o mesmo cabelo: nada como reforçar nossa identidade. De outro, queria saber como era viver em outro país, ter experiências diferentes das minhas, outros costumes. Os livros e o cinema alimentavam essa minha curiosidade, mas não bastava. Então me inscrevi num programa de intercâmbio de correspondências e acabei fazendo amizade com a Julie, que morava no interior da Inglaterra, com o Carlos, que morava no México, e com a Michelle, que morava na Nova Zelândia. Trocávamos fotos, falávamos da nossa vida pessoal, contávamos segredos que atravessavam oceanos, tudo em cartas escritas ora em inglês, ora em espanhol, e quando ninguém se entendia, desenhava-se. O que foi feito deles? Não faço a mínima ideia. Mas foram esses estranhos que ampliaram um pouco os meus horizontes e deram sabor de aventura à minha adolescência.

Aí a gente cresce e inventam um troço chamado computador. E os pais somos nós! Conscientes das nossas responsabilidades, batemos à porta do quarto das crianças e damos sequência à tradição, alertando-os: "Não dê conversa a estranhos".

Quá, quá, quá.

Afora as orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados em geral, é preciso relaxar: ninguém com mais de 10 anos evita estranhos, ao contrário, eles são buscados freneticamente no MSN, no Facebook, no Twitter, no Orkut, onde todos se expõem, transformando o mundo num gigantesco albergue coletivo. Uma versão ligeiramente mais abrangente e instantânea do que aquele meu programa de correspondência internacional.

Jamais pedi atestado de bons antecedentes para quem não conheço. Estranho é mau? Estranho é pior do que a gente? Se devemos ter vigilância com nossos filhos – e devemos mesmo – é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes, e provavelmente jamais verão. Dar conversa a estranhos não significa dar o endereço, o telefone e a senha do banco. Pode ser apenas um bate-papo divertido. E só pra lembrar: estranhos, somos todos.

8 comentários:

Marise Ribeiro disse...

Excelente texto da Martha, como sempre!
Parabéns pelo Blog, está cada vez melhor!
Abraços,
Marise Ribeiro

Sereia disse...

Bom dia meu grande amigo...
Esse texto realmente foi feito p/refletir sobre os estranhos q nos rodeiam...
Confesso q em algumas ocasiões me identifico mais com eles do q com alguém da família...
Um beijo grande e um lindo dia...
Te adoro demais

Cirse disse...

As vezes,pessoas que mal conhecemos,despertam em nos,bons sentimentos...

Estranho...Voce nao acha,Jose Carlos?!

Abraços,amigo bom de Marilia!

Carinhosamente,

Cirse.

CrisBoro disse...

Como eu gosto dos escritos da Martha, parece uma amiga de infância, que vivenciou tudo aquilo que já vivemos, passou por tudo o que já passamos.
Excelente este texto!
Beijão meu querido, bom final de tarde (aqui ensolarada).

RENATA MARIA PARREIRA CORDEIRO disse...

Olá, querido!
Estranhos somos mesmo, uns mais, outros menos, mas somos mesmo :)
Adorei sua postagem, querido! Já voltei + ou - . Estou por aqui hoje. Jamais me esqueço de você e venho lhe deixar um Beijo do tamanho do seu Coração e o meu Desejo de um Lindo Fim de Semana Cheio de Sol!
Renata

Anônimo disse...

Era uma vez...
Uma indústria de calçados que desenvolveu
um projeto de exportação de sapatos para a Índia.
Em seguida, mandou dois de seus consultores
a pontos diferentes do país para fazer as primeiras
observações do potencial daquele futuro mercado.

Depois de alguns dias de pesquisa, um dos consultores
enviou o seguinte fax para a direção da industria:
"Senhores, cancelem o projeto de exportação de sapatos para a Índia.
Aqui ninguém usa sapatos."

Sem saber desse fax,
alguns dias depois o segundo consultor mandou o seu:
"Senhores, tripliquem o projeto da exportação de sapatos para a Índia.
Aqui ninguém usa sapatos, ainda...."

MORAL DA HISTÓRIA:

O obstáculo era o mesmo para ambos, tudo na vida
pode ser visto com enfoques e maneiras diferentes.
A sabedoria popular traduz essa situação na seguinte frase:

"OS TRISTES ACHAM QUE O VENTO GEME;
OS ALEGRES ACHAM QUE ELE CANTA".

O mundo é como um espelho que devolve
a cada pessoa o reflexo de seus próprios pensamentos.
A maneira como você encara a vida faz TODA a diferença!!!
"Portalangels"

Graça Pereira disse...

Esta é a recomendação que todos os pais dão aos seus filhos:" Não dê ouvidos a estranhos". Mas a sociedade alterou-se e os costumes também a tal ponto que há "estranhos" na família e no grupo de amigos. Será que os "estranhos" hoje, mudaram de posição?Um beijo
Graça

M. Nilza disse...

Oi, amigo!

Apesar de tudo que passei, devo admitir que a Marta mais uma vez acerta em cheio!!

Afinal, quem é mesmo o estranho?...
Eu já não sei.

Beijos