27 Outubro 2009

AOS MEUS AMIGOS PROFESSORES ..


O ano é 2.209 D.C. - ou seja, daqui a duzentos anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
– Vovô, por que o mundo está acabando?
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:

– Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
– Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.

– Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
– Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
– E como foi que eles desapareceram, vovô?

– Ah, foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.
Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos. Estes foram ensinados a dizer “eu estou pagando e você tem que me ensinar”, ou “para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você” ou ainda “meu pai me dá mais de mesada do que você ganha”. Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo “gerenciar a relação com o aluno”. O professores eram vítimas da violência – física, verbal e moral – que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo.

Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. “Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular”, diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados. Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas “bem sucedidas” eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão, sindicalistas – enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade.

Ah, mas teve um fator chave nessa história toda. Teve uma época longa chamada ditadura, quando alguns dirigentes colocaram os professores na alça de mira e quase acabaram com eles, que foram perseguidos, aposentados, expulsos do país, em nome do combate aos inimigos e à instalação de uma república sindical no país. Eles fracassaram, porque a tal da república sindical se instalou, os tais subversivos tomaram o poder, implantaram uma tal de “educação libertadora” que ninguém nunca soube o que é, fizeram a aprovação automática dos alunos com apoio dos políticos... Foi o tiro de misericórdia nos professores. Não sei o que foi pior – os milicos ou os tais dos subversivos.

– Não conheço essa palavra. O que é um milico, vovô?
– Era, meu filho, era, não é. Também não existem mais...

(Autoria Desconhecida - Provavelmente um pobre e antigo ex-professor anônimo)

(Presente de Maria Carolina)

NR: Se puderem, leiam aos seus netos, quem sabe daqui a alguns anos ainda se lembrarão desta antiga profissão!!!

10 comentários:

Sereia disse...

Eu amei o texto,muito obrigado por mais esse carinho...
Infelizmente é a mais pura verdade,eu como professora concordo plenamente...
Obrigado meu querido, seu blog é brilhante e inesquecível...
Um lindo dia...
Beijos

Anônimo disse...

Amigo querido: eu tinha certeza de que você gostaria deste texto! Conheço suas preferências por conteúdos educativos, honestos, verdadeiros e que nos levem ao alcance de um mundo melhor.
Agradeço a postagem aqui neste cantinho fantástico!
Lecionei a vida toda... entendo inteiramente tudo que se diz neste desabafo.
Beijos
Maria Carolina / Uberlândia

Anônimo disse...

Olá José Carlos

Isso é uma fábula, mas talvez daqui a alguns anos não será mais pois os Professores realmente não têm mais nenhum estímulo para continuarem a dar aulas para pessoas que não estão interessadas em aprender, é uma lástima mas infelizmente é a realidade!!!

Beijos da amiga
Cleo

J. Araújo disse...

Zé Carlos, hà muito não vinha aqui, confesso. Mas com certeza estava eu perdendo a oportunidade de ler textos memoráveis como este.

É, realmente os professores desse país continua cada vez menos valorizados. Cada governo que entra desvaloriza a classe que é o carro chefe da educação. A partir de hoje serei seu seguidor.

Parabéns pelo belo texto.

Abraço

Valrita disse...

Zé Carlos... essa "era" já começou!
Meu esposo foi professor e agora está aposentado, o que ganha mal dá pra sobreviver... E ainda está com câncer e outras doenças. Tudo o que este texto traduz é a mais pura verdade...
Meu filho mais velho também é professor e sua esposa idem... lecionam história, mas para manterem uma vida mais ou menos digna, estão sobrecarregados de aulas! O desrespeito dos alunos pelos professores, é assunto quase que diário aqui em casa, e o mesmo desrespeito acontece entre os próprios colegas de classe: agressões mútuas e palavrões em plena sala de aula... e ai se o professor "levantar o tom de voz"... "ai se o professor" tentar apaziguar a briga... e ainda tem o pior: se ele não intervir ( o que pode custar a integridade física dele, pois será agredido também ) a "própria patrulha escolar" disse que se um aluno sair machucado numa briga e o professor não tenha intervido, pasmo!!! É o professor que vai responder a um processo judicial!!!
Infelizmente o texto está 100% correto...Os políticos são os primeiros, ah são sim. Depois os vilões, e é cruel dizer, mas estão dentro das famílias sim. Na maioria delas não há mais respeito, moralidade, educação, valores morais e cristãos! Ninguém mais está aí com o SER, o mundo está baseado no TER... E quem pensa "diferente" é discriminado e ignorado na sociedade.
Querido Amigo... estou com medo! Sinceramente medo da geração futura, não só do nosso país, mas das gerações do mundo inteiro.
E amigo, acredite, que num colégio aqui de minha cidade, " o inspetor de alunos " é um ex-presidiário!!! Não que uma pessoa assim, não tenha o direito de ter uma nova chance, mas, acho que a função de inspetor de uma escola deve ser exercidada, por uma pessoa muito bem formada e capacitada para assumir um cargo de tamanha responsabilidade... E vai chegar o dia em que realmente, os Vovôs vão contar essa história para seus netos!
Parabéns, pela publicação do texto!
Abraços, Valrita

☆Fanny☆ disse...

Verdade... senti bem estas palavras. Afinal é generalizado este sentimento.
Sou professora por vocação, gosto muito de ensinar e os meus olhos brilham quando sinto que os meus alunos aprendem e qerem sempre mas e mais. Infelizmente, os novos governos têm desprezado esta classe profissional, daí que assistamos cada vez mais à deturpação dos valores. Os alunos não respeitam os professores, porque sabem que no final recebem o "prémio" do seu mau comportamento e pouco empenho. Valoriza-se a mediocridade, e tantas vezes se esquecem os bons alunos que sabem ser íntegros, não os valorizam!

Um abraço, meu amigo!
Fanny

Cirse disse...

Poeta de Marilia,bonita e triste esta postagem...

Rogo ao bom Deus,para que tenhamos historias mais otimistas para contar sobre os nobres profissionais da educaçao...

Abraços de luz pra ti...

Cirse.

Anônimo disse...

Silêncio que fala
Viaje comigo, por favor...
Usa como teu passaporte a mente
E como teu transporte a imaginação....
Voe comigo, por favor
Por sobre o mundo e
Por sob o mundo....
Observa as imensuráveis montanhas...
Quantas palavras pronunciam?
Nenhuma, a não ser o assobio do vento
Que por elas resvala....
Entretanto, apesar de som algum proferir,
Elas falam!
Elas te dizem: "Onde estavas tu quando fomos formadas?"
Voe comigo mais uma vez, por favor...
Veja o campo...
Veja os lírios nele...
Até parece neve!
Mas não pronunciam som algum,
A não ser o quase inaudível zumbido das abelhas
Que sobre eles voam....
Mas, preste atenção novamente...
Eles falam!
O que dizem? "Onde estavas tu quando fomos aqui plantados?"
Voe comigo, por favor,
Por sob a terra agora...
O que vês?
Nada?
Preste atenção.....
Há um sol aqui...
Um sol, que também está em silêncio,
Mas mantêm as coisas lá em cima
No seu devido lugar...
Escuta!
Ele fala!
O quê? "Onde estavas tu quando fui projetado e formado?"
Voe só mais esta vez comigo, por favor...
Voe alto agora...
Veja a Terra por inteiro...
Mas quando estiver subindo,
Não deixe de notar
O céu ao pôr-do-sol
Dizendo em silêncio:
"Onde estava tu quando fui pintado?"
Não deixe de reparar também nas nuvens, que,
Sem boca,
Dizem: "Onde estavas tu quando evaporamos pela primeira vez?"
Nem de notar à sua frente as estrelas
E o Sol, tal qual aquele que à pouco viste enterrado,
Que, igualmente, lhe dizem:
"Onde estavas tu quando nos acenderam?"
Agora pare!
Volte-se!
E olhe!
Olhe aquela que te sustenta de tantas maneiras..
Olhe para a grande bola azul à sua frente....
Nessa hora talvez se perguntes:
"Por que Terra?
Por que não Água, se mal vejo o que terra é?"
Mas não deixe de notar...
Ela também fala?
O que ela diz?
"Onde estavas tu quando fui medida?
Onde estavas tu quando fui no nada colocada?
Onde estavas tu quando encheram meus pulmões?"
Onde estavas tu....
Nem sempre silêncio é falta de amor...
Observe tudo à sua volta,
Agora que voltamos da viagem.....
A maior parte está em silêncio profundo e imutável....
Mas fala!
Fala do Amor Daquele que se preocupou em formar tudo de maneira tal....
Que você pudesse viver....
Obrigado pelo prazer da companhia nesta viajem.....

Guida Linhares disse...

Ótimo texto para reflexão. Pois é...quanto a professores e alunos, teria muitas estórias para contar, que favorecem ou não ambos os lados. Com todo o respeito que merecem os bons professores, muito vai depender do alunado, que infelizmente hoje em dia, uma boa parte, peca pela falta de respeito, mostrando que a forma como foram criados, sem limites, não moldou a boa educação, e de um outro lado os pais esperam que a escola faça este papel..enfim atribuo tudo isso à modernidade. É claro que os bons mestres querem ensinar e os bons alunos aprenderem.
Porém há que se ter uma reforma do ensino, de forma a adequar os conteúdos curriculares aos moldes de um mundo que avança em escala geométrica,com um volume enorme de informações, acessadas de maneira simples e direta por qualquer criança ou jovem, pelos meios de comunicação.
Se não for dada a devida atenção à Educação,de maneira ampla, geral e irrestrita, seja pelos órgãos governamentais, escolas e famílias, realmente nem se precisa chegar a 2.200...talvez em 2015 já se possa perguntar ao neto, se lembra do texto lido na Casa do Zé Carlos.
Que a colheita do café seja muito bem sucedida!
Abreijos, guida

Irene Abreu disse...

Curiosa esta conversa futura sobre o PROFESSOR.
Jô Soares, escreve este texto dando uma definição, a propósito dessa profissão:

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!
É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia”.
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta ao colégio, é um “Adesivo”.
Precisa faltar, é um “turista”.
Conversa com os outros professores, está “malhando” nos alunos..
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não se sabe impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as hipóteses do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala correctamente, ninguém entende.
Fala a “língua” do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é retido, é perseguição.
O aluno é aprovado, deitou “água-benta”.
É! O professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.