30 Setembro 2009

FALANDO DE SAUDADES


Todo mundo fala em saudade, e nós adoramos dizer que saudade é uma palavra que não existe em várias línguas (e realmente, “ Mi manchi”, “I miss you”, ou “je te manque” estão longe de expressar, exprimir o nosso “tô com saudades”).

Só que a saudade que sentimos têm variações. Existem as saudades boas e as ruins, as nostálgicas resignadas, e as doídas. E só quem já sentiu cada uma delas, sabe diferenciar uma da outra. Ao falar (escrever) em saudades, lembro de uma música do inesquecível Luiz Gonzaga, regravada pelo Gilberto Gil, chamada “Qui nem jiló”.
Ela diz assim, em um trechinho:

Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer que é feliz sem saber
Pois não sofreu
Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce aí é ruim
[...] Saudade assim faz doer e amarga qui nem jiló


Muito legal a letra desta música, daquelas que a gente para pra pensar no que o cara estava falando. Quando fala …"da saudade que a gente “lembra só por lembrar”, Luiz Gonzaga diz que ela é boa, porque não se está sofrendo.
Acredito que não é bem assim. Sim, pois há casos em que não se sofreu mesmo, e há casos em que se sofreu sim senhor, e como! – só que não se está sofrendo mais, e as saudades então nos dão uma nostalgia gostosa. Mas só são capazes de enxergar esses detalhes, só têm capacidade de sentir esse tipo de saudade, as pessoas que conseguem não guardar mágoa e rancor: você lembra das coisas boas, dá aquela saudade gostosa, mas ela não dói justamente porque você não pensa (ou não quer) viver aquilo de novo; você sabe que já foi, que faz parte do passado, e que é bom que seja assim (afinal tem tanta coisa pra gente viver…).
Normalmente a gente sente esse tipo de saudade de anos bons da vida, de lugares em que se viveu, de viagens feitas, de pessoas amigas que perdemos o contato, etc (claro que amores passados precisam de uma dose maior de compreensão e desprendimento, mas também rola).
Mas tem o outro lado da moeda, né? Achei na internet um texto interessante, que diz:

A saudade é um bicho. Pode fazer-se dele um animal de companhia ou uma fera imprevisível e de difícil doma. Em qualquer dos casos a trela deve andar sempre curta e firme porque sem saudade os bichos somos nós. E, se nos arranhar, há que lamber rápido para apanhar ainda o sabor da ferida fresca”.

Para usar a comparação utilizada no texto, a saudade domada é a boa, a que foi citada lá em cima. A indômita (ou o outro lado da moeda da saudade “boa”), é aquela saudade doída, a dor da falta que a pessoa (ou um lugar, ou um grupo de pessoas ou um tempo da sua vida) faz – e no entanto, você sabe que não tem a menor possibilidade de rever aquela pessoa, reviver aquele sentimento ou então reviver aquela época da vida. É doído justamente porque vc ainda não se acostumou com a idéia de que algumas coisas não vão mais se repetir, não vão mais acontecer – só que vc não queria que fosse assim. Saudade doída sempre tem angústia e frustração dentro dela.
Mas ainda não falei da melhor e mais gostosa das saudades, a saudade boa mesmo: aquela com data pra terminar, aquela que a gente pode matar, aquela que a gente sabe que vai matar.
A diferença entre a saudade “doída” e esta última é praticamente a diferença entre gula e fome: enquanto a saudade que eu chamei de doída é quase um estado famélico, a saudade que a gente pode matar é aquela vontade de comer um doce no fim de semana, depois de uma semana inteira de regime, sabe? Sorte daqueles que têm o privilégio de senti-la.
Tem também um outro tipo de saudades, que julgo ser disparado o pior tipo delas: a saudade do que não aconteceu, a saudade do que não foi vivido; aquilo que o incrivel Manuel Bandeira tão bem definiu como ” A vida inteira que poderia ter sido e não foi”; aquela vida que Fernando Pessoa, angustiado, perguntou um dia : “quem escreverá a história do que poderia ter sido?”.
Ah, essa saudade…não tem tempo no mundo que faça passar…
O segredo está em fazer com que, apesar de doída, ela não infeccione; está em aprender a conviver com ela, e aceitá-la como parte de nós. Está em dar um espaço para ela existir, ao invés de sufocá-la e fazer de conta que ela não existe. Não adianta alguém te dizer “você não deve sentir isso”, porque todo mundo sabe que não deve. Só que fingir que ela não existe não a faz desaparecer certo? Porque afinal de contas, como escreveu Mário Quintana,
Somos donos de nossos atos, mas não donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos;
Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos…
Atos sao pássaros engaiolados, sentimentos são passaros em vôo.
Então, melhor deixá-los voar, melhor colocá-los pra fora – porque assim, eles não nos fazem mal. Certo? Pra quem achou esse texto meio sem pé nem cabeça: acho que ele é mesmo sem pé nem cabeça. Mas quem disse que tudo na vida tem que ser milimetricamente racional e ponderado, certo? Gostei tanto do texto da Lady Rasta, que o trouxe nesta tarde de terça-feira, pra que você pudesse também viajar um pouco…
Um tempo atrás, uma matéria na revista Superinteressante, falava sobre as traduções, mencionava (além da eterna dificuldade na tradução da palavra saudade) uma forma que os ingleses inventaram para descrever o sentimento (obviamente, fazendo uma metáfora):

“Quer saber como os ingleses traduzem a nossa representante na lista?
Pegue nostalgia, desejo intenso, tristeza e afeto, misture tudo, adicione açúcar, sal e uma dose de cachaça, tudo isso enquanto ouve algum samba.”

E ainda dizem que os ingleses são frios. Pois não é que eles pegaram direitinho aquele sentido de “molejo de amor machucado” que toda mulher digna desse nome, segundo Vinicius de Moraes, deveria ter?

**Lady Rasta

14 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

A primeira?
Saudades para mim querido amigo, é suave, leve, um verdadeira delícia, não me importa o que os ingleses digam, afinal eles são doidos.
Postei por lá, apareça, esta semana vou ficar por aqui.
Beijosssssssssssssss

Valrita disse...

Amigo José Carlos... ah, essa tal de saudade!!! Sim... realmente a palavra "saudade" é só nossa... nenhuma outra língua pode expressar o que é saudade, na lingua alemã existe a palavra:Heim-weh,um sentimento que traduz "saudades de casa, do lar, da terra natal" mas, não chega a expressar os outros sentimentos que a palavra saudade significa pra nós... e o texto bem que diz: nostalgia gostosa... e são poucos os que tem a capacidade de sentir esse tipo se saudade... E depois tem a tal da saudade doída... essa é animal mesmo, não dá pra lidar com ela sem dor. Depois vem a saudade gostosa que podemos matar... ah, como é bom essa tal de saudade,chamo-a de saudades dos sonhos, da esperança! E por último a saudade do que deixamos de fazer...e essa nosso saudoso Mário Quintana soube definir muito bem.
Parabéns pela pesquisa e um VIVA para os ingleses! Valrita

Anônimo disse...

Amei esse texto ele foi tão preciso q não há como argumentar...Parabéns meu querido...Tá tudo muito lindo aqui...Por falar nisso,estou com saudades docêeeeeeeeeeeeee....
Beijokas
Sereia

Andresa disse...

Aceitei o convite e vim tomar um cafezinho..... Cade o cafe?.... encontreia apenas a saudade... e que saudade meu amigo...!!!!!!!!!!!
Um grande beijo
Andresa

Andresa disse...

Aceitei o convite e vim tomar um cafezinho..... Cade o cafe?.... encontreia apenas a saudade... e que saudade meu amigo...!!!!!!!!!!!
Um grande beijo
Andresa

SILVANA PEDRINI disse...

Saudade é saudade! Só sabe quem sentiu. Triste é não ter uma palavra apropriada para este sentimento. Nenhuma explicação parece sensata, embora boa.

Abraços

Guida Sonho & Poesia disse...

Saudade é viajar no tempo,
sem sair do lugar. Saudade boa faz sorrir, e a ruim faz chorar. Feliz de quem sente saudades, porque amou de verdade. Abreijos, guida

Cirse disse...

Jose Carlos,essas "misturas" de saudades,podem resultar numa bebedinha deliciosa...E so usar a imaginaçao!!!

Abraçao pra ti,poeta de Marilia!

Cirse.

Menina do Rio disse...

A saudade tem tantas formas que não haveria explicação. Gostei do texto, Zé.

Beijinhos

A felicidade passou por aqui...Anápolis - GO disse...

Ze, ainda estou meditando nesta saudade,é muito complexo.Como se chama a saudade que a gente nunca pensa que vai matar e um dia a gente acaba revivendo? Deve ser felicidade.

Maria Alice Estrella disse...

Alguém escreveu que sentir saudade é morrer um pouco....

Mel Gama disse...

Zé... passando pra te deixar um beijo e dizer que vc já tem lugar fixo no meu coração, ta?
Beijo enorme!
Mel

Mel Gama disse...

Esqueci de dizer uma frase que sempre digo e que até está na última do meu blog:
"Saudade é a dor que fica..."
Beijossss

Cleo disse...

Olá José Carlos

Lindo texto emocionante mesmo, outra boa definição para a saudade contou certa vez Luis Vieira, perguntaram como ele definiria "saudade" e ele na sua simplicidade disse que "-Saudade é a vontade de ver de novo!.

Beijos da amiga
Cleo