20 Setembro 2009

DANIELLE MITTERRAND


Texto de Danielle Mitterrand, esposa do ex-presidente François Mitterrand,ao povo francês, após ter recebido críticas impiedosas por haver permitido a presença da ex-amante do marido e de sua filha, Mazarine, durante sua cerimônia fúnebre.


“Antes de mais nada, devo deixar claro que não é um pedido de desculpas. Muito menos um enunciado de justificativas vãs, comum aos covardes ou àqueles que vivem preocupados em excesso com a opinião dos outros.

Aos 71 anos, vivendo a hora do balanço de uma existência que é um sulco bem traçado e profundo, já não mais preciso, e nem devo, correr atrás de possíveis enganos.

Vivo o momento em que as sombras já esclarecem, e que as ausências são lindas expressões de perenidade e criação. Sombras e ausências podem ser tudo, ao passo que luzes e presenças confundem os mais precipitados, os mais jovens.

Vivi com François 51 anos; estive com ele em muito desse tempo e me "coloquei" sempre. Há mulheres que não se "colocam", embora "estejam" ; que não se situam embora componham o cenário da situação presumível de uma vida de altos e baixos.

Na época da Resistência, nunca sabíamos onde iríamos passar a noite - se na cama, na prisão, nos bosques ou estendidos por toda a eternidade. Quando se vive assim em comum, cria-se uma solda e a consciência de que é preciso viver depressa. Concentrar talvez seja a palavra. Por isso, tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as variações de sua pessoa e não de seu caráter...

Quem entende ou, pelo menos, luta para compreender as variações do outro, ama-o realmente e nunca poderá dizer que foi enganada ou que enganou. Não nos enganamos, confundimo-nos quando nos perdemos daidentidade vital do parceiro, familiar ou irmão. Ou jamais os conhecemos, e a nós mesmos também. Não se trata de um engano. Quem não conhece, não tem enganos. Nas variações do outro, não cabe tudo a um apaziguador ,antes do tempo, em forma de tranqüilidade. Uma relação a dois não deve ser apaziguada, mas vibrante, apaixonada, e não enfastiada.

Nessa complexidade vi que meu marido era tão meu amante quanto da política. Vi também que, como um homem sensível, poderia se enamorar, se encantar com outras pessoas, sem deixar de me amar.

Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém, e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente.

Não somos o centro amorável do mundo do outro. É preciso aceitar também outros amores que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.

Simone de Beauvoir dizia bem que temos amores necessários e amores contingentes ao longo da vida.

Aceitei a filha de meu marido e hoje recebo mensagens do mundo inteiro de filhos angustiados que me dizem: - 'Obrigado por ter aberto um caminho. Meu pai vai morrer, mas eu não poderei ir ao enterro porque a mulher dele não aceita.

É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores aos paranóicos azedos que teimam em sujar tudo.

Espero que as pessoas sejam generosas e amplas para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades, divisões e pequenas paixões.

Isso é amar por inteiro e ter confiança em si mesmo.

Deus não prometeu Dias sem Dor; Risos sem Sofrimentos; Sol sem Chuva. Ele prometeu Força para o Dia; Conforto para as Lágrimas e Lu para o Caminho

(Presente da CrisBoro)

20 comentários:

M. Nilza disse...

Muito rico o texto menino amigo Zé!

Se vc puder, dê uma lida na carata que escrevi para mim mesma..está lá no meu cantinho.

Beijos e bom domingo

Chave da Poesia disse...

Zé Carlos,
Talvez este tenha sido um dos melhores posts que já li em seu blog e seguramente, o de maior conteúdo intrínseco.
Aqui tem 'panos pra manga', difíceis de digerir mas são verdades inegáveis que fazem parte da vida de tantas pessoas.
Não me refiro aos preconceitos, mas à teimosia em reconhecer como normal, um fato que se repete através dos tempos, da história, em cada esquina, mas sempre camuflado pela rigidez das religiões, dos tabus, dos sentimentos de 'posse', como se alguém pudesse ser 'propriedade' de outrem nesta vida...
Se não é agradável encarar, não se pode negar que é realidade!
Parabéns. Estou certa que você vai fazer um bem enorme a muitas pessoas e alertar outras...
Um beijo,
Sylvia Cohin
(ChavedaPoesia)

Anônimo disse...

Querido Amigo Zé Carlos... achei belíssimo e nobre a força e o caráter de Danielle Mitterrand... principalmente seus sentimentos em relação a seu esposo... quanto amor!!! Ela é realmente madura e soube se "colocar"... ela soube realmente amar por inteiro... pois o verdadeiro amor não aprisiona, deixa o outro livre e é capaz de compreender até mesmo uma paixão... achei lindo os seus argumentos: viver sem mesquinhez, esse é o verdadeiro amor... aquele que, " esclarece e perdoa, que permanece fiel mesmo nas horas mais amargas da vida"... é lindo o que ela escreveu sobre uma relação a dois...e acredito que amar seja isso.
Parabéns pela publicação. Abraços, Valrita

Cirse disse...

Jose Carlos,esse "raio x" importantissimo e libertador,contribui para que se possa agir de acordo com a propria consciencia...abandonando "padroes" de comportamento pre-estabelidos...

Obrigada a Cris Boro pelo presentao...E a voce,claro,por compartilha-lo conosco...

Abraços de boa tarde...para os dois!!!

Cirse.

Anônimo disse...

Querido amigo Zé Carlos: MARAVILHOSO este texto da ex-orimeira dama francesa. Ela soube com clareza e muita classe dar uma "sacudida" em muita gente. Ela realmente praticou o que é AMOR no mais profundo e verdadeiro sentido da palavra.
Obrigada por tudo.
Beijos mineiros, Uai...rsss
Carolina / Uberlândia

Anônimo disse...

Zé Carlos...desculpe pelo "Anônimo", mas sou eu mesma...e acho que são artigos assim como os seus, que fazem com que um dia o mundo se torne mais humano...seu post sobre Danielle Mitterrand certamente vai abrir mentes ainda presas a sombras e preconceitos.
Abraços, Valrita

sueli schiavelli jabur disse...

caro amigo zé, que sublime a alma dessa mulher, que lição de dignidade e sensates, como sempre seu blog me fascina, a música é para matar de paixão,noche de ronda, amo com nat king cole e se não falhar meus ouvidos essa voz deliciosa é de luis miguel, um verdadeiro dionisio, amei, amei e amei, bjs

Helena Peixoto disse...

Caro Zé Carlos,

Obrigado por nos ter brindado com este post. É uma importante lição, para todos, de dignidade e Amor. De um Amor na verdadeira essência da palavra.

beijinhos

Helena

Anita "Menina-Flor-Mulher" disse...

Aí está uma mulher que soube amar verdadeiramente.

Bjs e ótima semana.

Poemas e Cotidiano disse...

Querido Ze:
Eu assinaria esse texto como se fosse meu... cada palavra sem mudar uma virgula.
Uma frase tao verdadeira eh: "Há mulheres que não se "colocam", embora "estejam" ; que não se situam embora componham o cenário da situação presumível de uma vida de altos e baixos".

A cumplicidade, o entendimento, e o passar por cima de tantas coisas que vemos mais tarde, tao desnecessarias...

Lindo texto Ze! Simplesmente magnifico.

Beijos
MARY

Li disse...

Este relato é a pura demonstração do verdadeiro amor. O que s manifesta incondicionalmente sem ser mesquinho. É neste amor que acredito. Sem posse, sem cobranças e com muito respeito pela individualidade e vontade do outro.
E como dizia o Poeta:
..."que seja eterno enquanto dure!"
Beijinhos
Elida

Anônimo disse...

Fico encantada com a capacidade que vc tem de só publicar textos profundos, agradeço tb a Cris por ter a mesma sensibilidade que vc ao te-lo enviado para a nossa satisfação!
Bjs aos dois!
Obrigada por esta oportunidade!
Serena

Ana Maria disse...

Um texto que merece ser lido várias vezes e refletir.
Beijinhos de boa noite!

CrisBoro disse...

Certamente ela mudou o rumo de muitas histórias.
Como admiro gente assim!

Beijão meu querido, boa noite e tenha uma linda semana.

(Carlos Soares) disse...

Um amor não egoísta. Despreendido. Interessante!

(Carlos Soares) disse...

Um amor não egoísta. Despreendido. Interessante!

Guida Linhares disse...

Beleza de texto, parabéns pela escolha, meus queridos amigos Cris e Zé. Realmente há muito preconceito em torno de certas realidades para as quais muita gente prefere fechar os olhos, por ser mais cômodo. Certa vez compareci a um velório em que estavam as quatro esposas e os sete filhos, além da companheira dos ultimos anos do falecido, e me emocionou a cena em que todas ao lado do caixão, prestaram a ultima homenagem e depois se abraçaram. A companheira era minha amiga de trabalho e passou com ele os anos mais felizes da sua vida.

Uma semana proveitosa e feliz. Abreijos, guida

Cleo disse...

Olá Jose Carlos

Essa mulher tem uma grandeza raramente encontrada em mulheres de pessoas importantes, mais que o homem público e o que ele representou para a França acredito que foi ela a grande heroína.

Beijos
Cleo

Graça Pereira disse...

Amar assim, é amar o outro na sua complexidade mas tambem..."vivo o momento em que as sombras já esclarecem".... contudo, uma Mulher que se soube "colocar" ao lado do homem/marido. Os grandes amores têm assim estes perfumes...
Obrigado por este post. Um beijo e boa semana Graça

Ricelli Laplace disse...

Os opostos são complementares, afinal..
Lindo blog!