22 Junho 2009

S... DE SAUDADE


" QUANDO CHEGAR A MINHA HORA E EU PASSAR PARA O LADO DE LÁ, NÃO CHORE POR MIM, TEREI IDO FELIZ."

Nos últimos anos da sua vida Ela sempre dizia isso à sua amiga. Era como se não restasse mais nenhum caminho a percorrer, era como se fosse uma estrada que realmente chegava ao fim.

Se conheceram quatro décadas antes de tudo isso, ela então com cinqüenta e dois anos e sua doce amiga, apenas uma menina, com doze primaveras que desabrochavam como rosas coloridas.

Eram vizinhas, Ela uma mulher exuberante, pintora, independente, sempre com muitos compromissos sociais, sempre viajando mundo a fora. Havia algo porém, que nunca pôde ser explicado. Apesar de ser uma mulher um tanto seca e muito reservada , quando se deparava com aquela menina, se desmanchava, parecia que a vida para Ela parava ali por alguns instantes.

E o tempo foi passando e aquela menina se tornou uma mulher e Aquela mulher uma velhinha, sozinha, envolta completamente na solidão. Não tinha parentes, nunca se casou, não teve filhos, mas viveu uma vida de glória, cercada de gente, aquele tipo de gente que assim como entra em nossas vidas, também sai, rapidamente. Gente que só convive bem com o glamour.

Os anos foram passando, a amizade, os encontros, as conversas agradáveis nunca cessaram entre Ela e sua amiga menina. O mesmo encanto que Ela teve pela garotinha de doze anos no primeiro dia em que a viu, ela ainda tinha pela mulher madura, que no decorrer da vida veio a se tornar sua única e grande amiga.

Nos seus últimos anos de vida, afastada de tudo e de todos, com poucos recursos para sobreviver, as coisas se tornaram muito difíceis para Ela, no entanto a sua grande companheira não a abandonou e tentou ajudá-la em tudo que esteve ao seu alcance, desde a companhia, ao prato de comida.

Um dia, já perto de morrer, ela realizou um pequeno sonho, foi rever uma exposição de Monet que acontecia na cidade em que vivia, Rio de Janeiro. Este foi um momento mágico para a menina/mulher, vê-la finalmente em seu habitat natural, junto da arte que tanto lhe encantou por toda a vida.

Mas a fraqueza daquele coração artista era cada vez maior e a idade também. Aquele compasso que durante tantos anos guiou suas mãos para pintar quadros maravilhosos estava perdendo seu rítmo.

Da janela de sua casa, podia observar a casa da sua amiga menina/mulher, mas especificamente o quarto dela, que tinha uma luz amarelada e indireta. Dizia sempre a ela: Adoro ficar da minha janela observando a luz difusa do seu quarto.

E chegou o dia da sua partida... foi sem se despedir... sem medo... sem desespero... sem arrependimentos...no silêncio de uma tarde, na solidão de sua casa.

Nesse dia sua amiga menina/mulher não viu a luz de sua casa se acender às seis da tarde como de costume, não viu nenhum tipo de movimentação e foi até lá... e suas batidas na porta foram em vão.

Ela entendeu o que estava acontecendo, mas se recusou a acreditar. Amigos a ajudaram a enfrentar aquele momento que já era esperado, mas que doeu tanto, que amargou uma enorme solidão na alma, que explodiu num grito e ecoou através de um rio de lágrimas.

Nunca saberemos a falta que alguém vai fazer em nossas vidas, até que ela nos deixe orfãs de sua presença. Essa foi uma certeza que a menina/mulher teve nesse dia.

Voltando pra casa depois daquela noite terrível a menina/mulher teve uma surpresa... da janela de seu quarto viu aquela mesma luz difusa amarelada que havia em seu quarto, na casa de sua amiga que havia partido. No dia seguinte foi até lá para apagar a tal luz.... reflexo aquele que nunca havia visto por lá antes... não havia nenhuma luz que tivesse sido esquecida acesa... e ela já sabia disso... ela entendeu no exato momento que viu aquela luz, que aquilo era apenas um adeus e um recado...: ESTOU BEM, PARTI ILUMINADA.

Depois de ter dito em vida, inúmeras vezes à sua doce amiga - "Você é a filha que eu nunca tive" - ela provou em morte que isso era verdade com um testamento:

"Tudo que eu tenho, deixo pra ela após minha morte... porque foi ela... tudo que eu tive em vida"

Ela se chamava -------- Suzanne Betous

A menina mulher ------- Silvana Duboc

Ambas com suas origens na França

Ambas artistas dentro do coração

Ambas com a mesma inicial em seus nomes

S...de Saudade!

In Memorian
Suzanne Therese Betous
- 04/09/1914 - 23/02/1999

**Silvana Duboc**

14 comentários:

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

É a vida amigo! A morte está sempre ao lado.Quando chegar minha hora vou permitir que a morte me leve sem lutar com ela.
Belo texto amigo querido.
Aproveito para desejar uma feliz semana.
Apareça por lá , tenho novidades.
beijossssssssssss, meu querido amigo Zé

Anônimo disse...

Nossa!!!Que história linda!!!
Que amizade profunda,hoje isso é tão raro...
Mas quando lemos uma relato assim, nos faz refletir em muitas coisas,é tempo de corrigir os erros e amar as pessoas como se ñ houvesse o amanhã...
beijos e um lindo dia...
SEREIA

Anônimo disse...

Jose Carlos,tive a oportunidade de conhecer e ler textos da Silvana Duboc por meio de suas postagens,confesso que me surpreendo com eles,sao muito bons!

Em relaçao a este,me emocionei...

Espero viver ainda muito tempo,realizar meus sonhos:casar,ter filhos,etc.Mas,se por motivo de força maior,minha vida for interrompida,o bem mais precioso que possuo ja doei em vida para a pessoa que me ensinou o que e o amor...

Que bem e esse?

_Eu mesma.

Abraços poeta de Marilia!

Com o carinho de sempre,

Cirse.

CátiaSofia disse...

Não é preciso casar e ter filhos para ser feliz, essa sua miga demonstra muito bem isso.
Gostei do post muito bem.
Beijo grande.

Priscila Lima disse...

carinhosamente um abraço...
emocionate.
Priscila Lima

celina vasques disse...

Uma estória belissima e emocionante!
Muito linda mesmo!
Parabéns pelo texto !

beijos meus!

CrisBoro disse...

Olá meu querido,
Os elos que unem duas pessoas são os mais variados, não importa sexo, idade, classe social, enfim, esse laço de amizade, que surge do nada e fica por uma vida toda, é presente divino.
Feliz a Silvana que pode viver essa amizade.
Beijão meu querido. Boa noite

Anônimo disse...

Zé historia bonita porém triste.
Gosto demais dos textos da Silvana.
Mais tive a impressão que se era uma amizade verdadeira entre ambas elas se conheciam profundamente e se respeitavam mutuamente. Deveria ter algo em ambas que uma admirava na outra...E com certeza ambas, sabiam que a maior riqueza é a propria vida.E com certeza os bens que ela tinha. Ela levou para eternidade. Que foram as licões e a prova de cada etapa da sua vida. Tanto é que ela partiu iluminada. O maior bem que podemos doar é o amor que Deus nos ensinou. AMAR O PROXIMO COMO A SI MESMO.Se eu fosse a menina mulher entregaria nas obras Sociais de Irmã Dulce.Aqui na minha cidade.A amiga dela com certeza tinha uma boa aposentadoria. Talvez até mais que a dela. Como a vida é cheia de mistérios e surpresas o finnal se fosse assim era mas perfeito.

Anônimo disse...

Bom Dia Zé,

Você sabe que sempre gostei de seus Blogs e Flog não apenas por causa das postagens, mas acima de tudo por todos os pedaços de sua personalidade que são deixados aquí e alí em cada texto, em cada ilustração e que juntados num só conjunto formam esta pessoa encantadora que você é e que eu aprendi a conhecer e admirar...

Tenho tentado deixar minha marquinha aquí...

Rita

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Cadê você Zé?
Vá me visitar...
beijosssssssssssssssssssss

ParadoXos disse...

Amigo Zé tenho de te confessar que da tua parte recebi uma das surpresas mais felizes lá no meu cantinho! Sei do imenso carinho que a Mary tem por ti. E com toda razão pois eis aqui mais um ser ímpar e magnânimo!!
Voltarei nesta bela casa, com prazer...
Um fortíssimo abraço!

Joice Worm disse...

Bem haja!
Um beijo à Silvana que fez Suzanne feliz em sua existência.
Tenho certeza que para ela, nada importa além da falta que sua amiga lhe fará.
Belíssimo relato, Zé Carlos!
Um abraço para ti também.

carmen disse...

Que historia mais linda, de dedicação, de amor, de amizade!!!

Triste e linda!!!
bjs

Anônimo disse...

S - de Sabedoria, amigo.... saber ser AMIGO de verdade é isso: não tem explicação!
Parabéns pela escolha do texto.

Carolina / Uberlândia / MG