
A esperança em vidros coloridos
Sempre olhei com desconfiança a teoria estética da psicanálise que afirma que o sentido de uma obra de arte não se encontra nela mesma, mas nos subterrâneos obscuros da alma de onde ela brota. Toda obra de arte é uma dissimulação. A beleza é um gemido travestido. O que levou Bachelard a brincar: "O psicanalista é uma pessoa que, quando lhe mostramos uma rosa, pergunta: "Mas e o esterco, onde está?'"
Mas esse livro de vitrais que estou folheando, a mais linda coleção de vitrais que jamais vi reunidos, obras de um único homem, está me produzindo pensamentos diferentes. Estou pensando que há obras de arte que só ganham a sua verdadeira dimensão quando as vemos através da transparência do rosto do artista. É o caso da "Nona Sinfonia". Não é preciso saber o nome de Beethoven para sentir a sua beleza. Acontece, entretanto, que Beethoven estava completamente surdo quando a compôs. Ele não podia ouvir sua própria música.
Quando a ouço, pensando em Beethoven açoitado pelo destino, a "Nona Sinfonia" ganha a sua dimensão trágica. Ela se torna um testemunho do triunfo do espírito sobre a tragédia. Como disse Rilke, a beleza nos permite contemplar a tragédia sem sermos destruídos por ela.
Senti algo parecido ao ver os vitrais em cada página. Maravilhosos, em si mesmos. Mas, ao pensar no artista, eles se tornam um testemunho.
Arystarch Kaszkurewicz, vitralista, um polonês pacifista. A guerra lhe arrancara as duas mãos e um olho. Ravel compôs um concerto de piano para a mão esquerda, dedicado a um pianista amigo que perdera a mão direita na guerra. Mas um vitralista, sem as duas mãos? Ele pensou que no Brasil poderia refazer a sua vida. Mas havia uma lei que proibia a entrada de deficientes físicos no país. O país precisava de homens saudáveis, bons para o trabalho. Que trabalho se pode esperar de um homem sem as mãos? Foi uma carta do National Catholic Wellfare Conference (1951) que abriu o caminho. Em 1952, por decreto do presidente Vargas, ele desembarcou em Santos com a sua família.
A princípio trabalhou como empregado de uma casa especializada em vitrais em São Paulo. Suas obras ficaram sem assinatura. Mas ele nelas deixava secretamente traços e símbolos que só os seus amigos entenderiam. O vitralista Simeão Sugai, 74, trabalhou com ele por cerca de dez anos. Comentou que tudo ele fazia sozinho, do planejamento à execução. Só uma coisa lhe pedia: que lhe arregaçasse as mangas... Era um solitário. Fugia dos jornalistas que o procuravam. Quando era inquirido sobre o significado de seus vitrais ele respondia: "Para quê? As crianças entendem sem fazer perguntas...".
Peregrinou por todo o país espalhando a beleza. Fez cerca de 20 vitrais que contam a colonização do Brasil. Também os vitrais do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo são de sua autoria. O padre Baldan, 84, da Paróquia de N.S. Auxiliadora, em Campinas, relata: "Ele veio me pedir para trabalhar na paróquia. E já possuía um projeto em mente. Eu sorri desconfiado. Como é que um homem sem mãos poderia realizar tal trabalho? Vendo a desconfiança no meu sorriso ele espalhou sobre a mesa desenhos e fotos da sua obra. "Aí está o meu trabalho. Olhe para eles. Não olhe para mim.'" Fez no altar dessa paróquia um mosaico de nove metros de altura com minúsculas pastilhas de vidro: a Virgem assentada num trono com o menino Jesus ao colo. Todos temos o direito de nos assentar no colo da Virgem...
Do altar dessa igreja, olhando-se na direção da porta principal, Arystarch colocou no vitral um arco-íris que cobre o mundo. Beethoven cantou a alegria. Arystarch Kaszkurewicz pintou a esperança.
Todas as informações desse artigo foram retiradas do livro de Raquel Bueno Arystarch: "O Arquiteto dos Deuses" (Eletrobrás. Campinas, SP: Ed. do autor, 2004).
A foto no alto é da Catedral de São José, Fortaleza, Ceará
© Rubem Alves
(Presente de Cleo Dal Prá)
























9 comentários:
Oi, meu amigo!
Que texto maravilhoso! Hoje, falei em esperança num dos meus comentários. Sinto que seja o melhor dos aprendizados que o tempo nos dá. Assim como a fé.
Beijos e um ótimo domingo pra vc
uma pequena "palavra" sobre vitrais. É uma arte muito bonita, lamento que se esteja a perder, hoje já ninguém faz "vidrieras" como antigamente.
saludos
Zé Carlos
Lindo demais!!!
Este HOMEM foi um heroi e exemplo para muitas pessoas que vivem se quixando sem motivos.
Obrigada por nos dar a oportunidade de conhecê-lo.
Beijos Meus
Um belo tema sem duvida!
E eu adoro tudo ele!
E tens uma musica belissima :-)
Mais uma vez te quero agradecer a imagem, esta linda demais! Jamais esquecerei esse teu gesto, ficara para sempre no meu coraçao!
Obrigado.
Um beijinho*
Boa noite Meu querido Amigo!
Por causa de afazeres a que não pude fugir, só agora me foi possível abrir o computador. Por isso, vim visitá-lo e deixar as minhas mensagens,neste coisas belas que o Zé Carlos coloca no seu Blog e no da Fazenda Urupês.
Neste caso dos vitrais e do artista Polaco Arystarch, que maravilha, que beleza, que deslumbramento!!!
Realmente Deus quando dá Arte em abundância a um ser mortal, mesmo na maior dificuldade, ele é capaz de transpor o que parace intransponível.
Parabéns Zé Carlos, musica belíssima e fotos maravilhosas.
Beijos.
Maria Mamede
Ah, vejo que usou imagens de coisas da minha terra: os vitrais da catedral de Fortaleza. Bom gosto em música, nas palavras e nas emoções que postou aqui, meu bom amigo Zé.
Passe lá nos Uivos e responda ao Disparate Emocional. Pode ser um tour pelo passado, mas também pode ser a descoberta dos novos passos a tomar.
BeiJuivooooooooooooossssss de uma semana maravilhosa
Zé, o homem é limitado por que não confia nele mesmo. Aqueles que tem uma deficiência buscam outras formas para se expressar e aí a genialidade se manifesta. Não devemos nos limitar só ao que aparentemente temos capacidade, devemos ir além.
Amigo ganhei um prêmio, veja lá no Verdes!
Bjos.
Querido Ze: Uma frase deste polones me deixou a pensar: "Olhe para meu trabalho, nao olhe para mim".
Que frase forte e com sentido! Que maravilhosa historia.
Por que nos limitamos sempre as aparencias?
Magnifico artigo!
Beijos querido, durma com Deus.
Mary
I just researched my name and here came your page. My name is Arystarch and only because I changed it from Aristarch to this spelling. Just curious about the Polish artist. Please give me some information. By the way I love Brazilian music, including MPB
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